quinta-feira, 5 de abril de 2012

Memorias do subsolo - Fiodor D.

EU SOU um homem doente... Sou um homem malvado. Sou um homem desagradável. Creio que tenho uma doença do fígado. Aliás, não compreendo absolutamente nada da minha moléstia enão sei mesmo exatamente onde está o mal. Não me cuido, nunca me cuidei, se bem que estime os médicos e a medicina. Demais, sou extremamente supersticioso, o bastante, em todo o caso, para respeitar a medicina (sou bastante instruído: poderia então não ser supersticioso, mas sou). Não! Se não me trato, é pura maldade deminha parte. Não sabereis certamente compreender. Pois bem! eu compreendo. Não poderei evidentemente explicar-vos em que errei, agindo tão malvadamente: sei muito bem que não são os médicos que eu incomodo, recusando-me a tratar-me. Não engano senão a mim mesmo; re-conheço-o melhor que ninguém. Entretanto, é mesmo por malvadez que não me trato. Sofro dofígado! Tanto melhor! E tanto melhor ainda se o mal piora.Há muito tempo já que eu vivo assim: uns vinte anos, pouco mais ou menos. Fui funcionário, pedi demissão. Fui um funcionário muito ruim. Era grosseiro e tinha prazer em sê-lo. Podia bem me compensar desta maneira, pois que eu não aceitava gorjetas (esta brincadeira não tem graça; masnão a suprimirei. Escrevi-a crendo que teria espírito; não a apagarei, entretanto, expressamente; porque vejo que queria me dar ares de importância). Quando os solicitantes em busca deinformações se aproximavam da mesa diante da qual eu estava sentado, eu rangia os dentes; sentiauma volúpia indizível, quando conseguia causar-lhes algum aborrecimento. Conseguia-o quasesempre. Eram geralmente pessoas tímidas, acanhadas. Solicitantes, pois quê! Mas havia às vezes presumidos entre eles, petulantes, e eu detestava particularmente certo oficial. Ele não entendia desubmissão e arrastava o grande sabre, de um modo detestável. Durante um ano e meio movi-lheguerra, por causa desse sabre, e finalmente saí vencedor: ele parou de teimar. Isto, aliás, se passavano tempo da minha mocidade.Ora, sabeis, senhores, o que excitava sobretudo minha raiva, o que a tornava particularmente vil e estúpida? É que eu me inteirava vergonhosamente, mesmo quando a minha bílis se esparramava mais violentamente, que eu não era mau homem, no fundo, não era nem mesmo umhomem azedo, e que tomava gosto, muito simplesmente, em assustar os pardais. Tenho espuma na boca; mas, trazei-me uma boneca, oferecei-me uma chávena de chá bem doce, e é provável que eume acalme; sentir-me-ei mesmo muito comovido. É verdade que, mais tarde, morderei os punhos deraiva, e de vergonha perderei o sono durante alguns meses. Sim, eu sou assim.Menti antes, quando disse que tinha sido um mau funcionário. Foi por despeito que menti.Tentava muito simplesmente distrair-me com os solicitantes e esse oficial, e nunca pude conseguir tornar-me realmente mau. Com efeito, verificava sempre em mim a presença de um grande númerode elementos diversos que se opunham violentamente. Sentia-os fervilharem em mim, por assi mdizer. Sabia que estavam presentes sempre e aspiravam a manifestar-se do lado de fora, mas eu nãoos deixava; não, não lhes permitia evadirem-se. Atormentavam-me até à vergonha, até às con-vulsões. Oh! como eu estava fatigado! como estava saturado!Mas não vos parece, senhores, que eu me arrependo e que vos peço perdão de não sei quecrime? Estou certo, senhores, que ides imaginar isso... Mas aliás, digo-vos que, quer vós o imagineis ou não, isso me é indiferente..

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