sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Joselino e Zé pinga



E eu aos vinte e sete anos de idade, quem iria imaginar na rua como um mendigo, todo historia que resultou nisso é a soma de fatores inigualáveis de uma sociedade doente, de uma precária estrutura familiar e de minha insaciável bebedeira.
Como eu dizia cá estou na rua, um par de chinelos, uma mochila com algumas peças de roupa e um cacho de bananas, ao menos tenho um livro bem difícil de ler para abrir em momentos de puro e deprimente ócio.
Sempre pensei que ser mendigo era algo deprimente, nojento, ofensivo até no ato de ser um mendigo, mas para falar a verdade nesse momento com o sol torrando os pneus que passam pelo asfalto e eu aqui debaixo de uma arvore no centro de um descampado, que era para ser uma praça, comendo uma banana estou e pensando o que vou jantar amanha ou hoje ainda, de certa forma vejo beleza em ser assim, vejo liberdade nessa beleza, vejo dignidade em ser eu mesmo. Só pelo fato de não participar mais da sociedade e não ter que colocar uma mascara social logo depois do café da manha me sinto livre, e isso é belo no meu ponto de vista, sei logicamente que com vinte e sete anos e alguns conhecidos pela cidade já sou, mesmo eles não terem e visto assim, um doido, pirado, lunático.
Bom, acho que um bom mendigo um de longa data e experiência diria uma única coisa:
______Foda-se!
E justamente isso, foda-se, só eu sei do porque eu cheguei aqui, dos motivos que me levaram a esse estado, mas quer saber agradeço a esse tal de Deus por estar aqui, aos menos tenho mais algumas bananas.
Ao girar com a cabeça, olhando pelos ombros uma imagem mexeu-se abaixo da grama alta que cobria a tal praça.
_____Quem está ai?  disse uma voz tremula e cansada.
_____Quem está ai porra? Repetiu
_____Sou eu Joselino. disse normalmente
_____Vaza essa praça é minha. E falando um homem branco todo sujo e barba cumprida e cinza levantou cambaleando.
_____Meu senhor essa é uma área publica e eu moro na rua estou aqui fugindo do sol, aceita uma banana? Disse joselino calmo e com confiança.
_____Enfia essa banana no cú seu filho da puta essa praxa é minha. Disse agora percebendo que a voz estava completamente enrolada e ele aparentava estar bêbado ainda da noite anterior.
_____Eu sou o zé pinga e esse pico é meu ninguém pode ficar aqui sem a minha autorização, você tem pinga ai? O homem continuo.
_____Não, apenas um pouco de banana ara comer e estou sem dinheiro. Joselino explicou.
_____Tanto faz. Disse zé , caiu de baixo da mesma sombra e dormiu.
Enquanto Zé pinga roncava ali ao seu lado Joselino viu alguns conhecidos passando pela calçada próxima dele, eram dois amigos e uma amiga, todos eles reconheceram Joselino, mas vendo ele ali debaixo da arvore com um bêbado caído ao lado e o sua bolsa de roupas apenas olharam para ele com um certo ar de nojo e desprezo e fingiram não reconhecer passaram sem ao menos dar um “oi”.
Certo de que isso iria acontecer esse certo desprezo Joselino encostou o melhor que pode e tratou de tirar uma soneca.
Ao acordar já de noite, Zé da Pinga estava sentado a sua frente bem melhor com outra cara dando risada e segurando uma pequena garrafa de pinga.
____Vai um corote ai? disse o velho sorrindo.
____Não Zé valeu!
____Você é de onde menino?
____Sou daqui mesmo, morava ali no bairro Altivo.
____Ué, e o que tá fazeno aqui? Vai pra sua casa, a rua é para os cachorros.
____Não tenho mais casa zé, perdi tudo, até os amigos.
____Então vou lhe apresentar para o seu grande futuro melhor amigo.
E erguendo o braço esticou o corote para Joselino que sem muito embaraço pegou e deu uma tragada, fazendo uma cara feia e tragando novamente ele disse:
_____ Sabe de alguma canto aqui na cidade que da pra dormir mais tarde?
______Sei sim, aqui mesmo, Rárárárá, quer que eu pegue o seu lençol? Rárárá. Dando gargalhadas Zé pegou o corote e mamou sem remorso sua velha e boa companhia.
Passaram algumas horas e os dois estavam bêbados, Zé pinga em um gesto de boas vindas apresentou alguns corotes pela noite, os dois completamente bêbados haviam saído para comprar mais e acabaram dando uma volta pelo centro da cidade, algumas pessoas viram Joselino e como os três de tarde haviam ignorado com os olhos o novo mendigo da cidade, Zé da pinga foi mixar em uma arvore e Joselino continuou andando sem se dar conta que o amigo estava mixando, Joselino andou por três quarteirões até chegar a frente de uma casa com as janelas abertas e muitas luz, musica, pessoas falando e dando risada e um cheiro bom de comida. Naquele momento Joselino estava fedendo, completamente bêbado e com uma certa fome pois banana para um homem de 1,80 não era uma refeição consistente ao longo do dia regado a pinga. Ele ficou ali parado por alguns minutos tentando ficar ao menos ereto sem ficar balançando para frente e para trás, ao sentir firmeza bateu na porta, ninguém saiu ele bateu novamente, ninguém saiu, ao bater novamente a porta abriu lentamente e ninguém saiu de dentro da casa. Como estava completamente bêbado e já sem noção de suas atitudes Joselino entrou na casa, as vozes e risadas estavam cada vez mais altas, parecia que todas as pessoas da casa estavam na parte de trás da casa,  sem cerimonia Joselino abriu a geladeira e começou a pegar várias coisas para comer, tinha muita cerveja a qual ele começou a beber uma atrás da outra como se ele tivesse acabado de sair de um deserto e aquilo fosse agua gelada.
Ainda mais bêbado Joselino começou a dançar ao som da musica que vinha do fundo da casa, e a trombar pela cozinha derrubando tudo que estava no seu caminho, derrubou cerveja pelo chão e comida em cima de tudo isso criando uma ambiente que mais lembrava de uma casa cheio de adolescentes em pleno carnaval em São Luiz do Paraitinga.
_____Joselino, aonde o senhor estava? Disse uma voz feminina autoritária e amorosa ao mesm tempo.
______E tava, eu tava, eu to. Disse ele com uma voz enrolada.
______Você está completamente bêbado? Disse a mulher, e continuou.
______Que porra é essa Zé, você sumiu o dia todo e eu aqui preparando tudo pra você o que te deu a cabeça aonde você se meteu? Estão todos aqui esperando. E ao aproximar-se de Joselino o cheiro forte bateu e ela com uma cara de nojo enfiou um tapa na cara de Joselino.
______Caralo, bati na mai sua... Joselino caiu sentado no chão sujo da cozinha.
Marisa sua mulher chamou alguns homens que estavam na festa e colocaram Joselino no banho para uma ducha gelada, logo depois colocaram ele na cama e o deixaram ali dormindo, no dia seguinte ele acordou com uma puta dor de cabeça e Marisa estava sentada na cama.
______O que aconteceu Zé? Você disse que ia na casa de seu pai e você sumiu o dia todo. Disse sua mulher com uma voz calma.
______Eu não lembro de muito, ai, minha cabeça.
______ Eu decidi largar tudo virar mendigo, viver sem o sistema, mas pelo jeito não deu certo, acabei voltando para casa.

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